Estado do Rio tem a pior taxa de alfabetização de todo o Sudeste

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O Rio de Janeiro chega a 2026 diante de um cenário preocupante na educação pública. Apesar de ser a segunda maior economia do país, o estado acumula indicadores que o colocam entre os piores desempenhos educacionais do Brasil e revelam uma trajetória de estagnação e retrocesso que começa já na alfabetização das crianças e se prolonga até o Ensino Médio.
O levantamento elaborado pelo Movimento EducAçãoRio, em parceria com a Falconi Consultoria, mostra que o Rio de Janeiro apresenta a pior taxa de alfabetização entre os estados do Sudeste. Na prática, 4 em cada 10 crianças de 8 anos matriculadas na rede pública fluminense não conseguem ler e compreender uma frase inteira com autonomia, muito menos um parágrafo.
As consequências desse déficit no início da vida escolar geram um efeito cascata de defasagem ao longo de toda a jornada do estudante: Na entrada no Ensino Médio, menos de 35% dos estudantes entram no Ensino Médio com nível adequado em Língua Portuguesa; em Matemática, o índice é inferior a 15%. Na saída do Ensino Médio: O abismo se consolida no final do ciclo. Apenas 24% dos estudantes concluem o Ensino Médio com aprendizado adequado em Língua Portuguesa; em Matemática, a situação é ainda mais trágica: apenas 2% dos jovens se formam dominando o conteúdo esperado.
O estudo completo foi apresentado esta semana, durante o encontro “Rio no Topo: Educação como Alavanca do Desenvolvimento”, promovido pelo Movimento EducAção.
“Precisamos ser muito honestos intelectualmente: o principal desafio do Rio não está no volume de recursos ou na complexidade de tamanho da rede, mas sim na capacidade gerencial. Dinheiro sem gestão técnica, sem foco na aprendizagem e sem continuidade, é desperdício de futuro. Eliminar os gargalos de ineficiência e o desvios de recursos é um passo ético inegociável, mas a melhora real exige profissionalização e a transformação da Educação em prioridade real na agenda de desenvolvimento econômico e social do estado", afirma Carla Jucá, Diretora Executiva do Movimento EducAçãoRio.
Sem estratégia clara e estruturada para lidar com os desafios existentes, mesmo possuindo o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, o Rio de Janeiro registrou novamente o segundo pior Ideb do Ensino Médio brasileiro em 2023, ficando à frente apenas do Rio Grande do Norte. O estudo destaca que o estado já ocupou a penúltima posição em 2009, conseguiu avançar entre 2011 e 2014, mas tendo deixado de priorizar a educação, políticas públicas importantes foram descontinuadas, como Avaliação Bimestral da Rede e seleção das lideranças educacionais considerando critérios técnicos - e voltou então a figurar entre os últimos colocados do ranking nacional.
O diagnóstico aponta que a limitação não está na disponibilidade de recursos financeiros. O Rio investe cerca de 83% mais por aluno do Ensino Médio do que Goiás, estado que lidera o Ideb nacional nessa etapa de ensino. Ainda assim, os resultados educacionais permanecem distantes das redes mais eficientes do país.
Nos últimos cinco anos, os gastos estaduais com educação cresceram de R$4,9 bilhões para R$7,8 bilhões, aumento de 59%, acima da inflação acumulada no período, de 33%. No entanto, o avanço dos investimentos não foi acompanhado por melhora nos indicadores de aprendizagem. Segundo o estudo, enquanto as despesas totais aumentaram, o estado passou a apresentar resultados cada vez mais insatisfatórios. Ou seja, pioramos a qualidade, pagando cada vez mais caro.
A análise também identifica desequilíbrios na composição dos gastos. Entre 2021 e 2025, as despesas com pessoal cresceram 33%, acompanhando a inflação, enquanto os gastos de custeio avançaram mais de 110%. Ao mesmo tempo, o Rio é o único estado brasileiro que ainda não paga o piso nacional do magistério como vencimento-base da carreira docente, recorrendo a complementações salariais para atingir o valor mínimo estabelecido nacionalmente.
Outro entrave está relacionado à qualificação da oferta educacional. Apenas 10% das matrículas do Ensino Médio da rede estadual estão vinculadas à Educação Profissional e Tecnológica (EPT), o menor percentual entre os estados analisados e muito abaixo da média do Sudeste, de 19%. Em estados de referência, como Goiás, esse índice chega a 48%.
O acesso ao ensino em tempo integral também permanece limitado. Em 2025, apenas 14% dos estudantes do Ensino Médio da rede estadual fluminense estavam matriculados nessa modalidade, enquanto a média nacional alcançou 26%. Na prática, o Brasil já oferece quase o dobro de vagas em tempo integral em comparação ao Rio de Janeiro.
Os dados ganham ainda mais relevância quando observada a estrutura da rede estadual. O estudo aponta que as condições geográficas e estruturais do Rio de Janeiro deveriam favorecer a gestão. O estado possui 92 municípios e uma das menores dispersões territoriais de escolas do país, facilitando tanto a logística da rede estadual quanto o suporte às redes municipais na alfabetização. Para efeito de comparação, o estado do Ceará possui o dobro de municípios e uma dispersão de escolas 5 vezes maior que a do Rio. Mesmo diante de desafios territoriais muito mais complexos, o Ceará tem hoje 85% de suas crianças alfabetizadas na idade certa e apresenta o 5º melhor resultado nacional no IDEB do Ensino Médio.











