O Mistério das Ilhas Maricás: como cabras abandonadas há décadas criaram uma nova floresta

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O arquipélago das Ilhas Maricás, localizado na costa da cidade de Maricá é palco de um fenômeno ecológico intrigante
A chegada das cabras a ilha principal do arquipélago das Ilhas Maricás é fruto de uma prática histórica na região. A principal explicação para a presença desses animais se deve à introdução feita por pescadores e moradores locais ao longo das décadas de 1970 e 1980.
Nesse período, a maior ilha do arquipélago era utilizada como ponto de apoio por trabalhadores e suas famílias. Para garantir o sustento diário no isolamento marítimo, eles transportavam pequenos rebanhos de caprinos de barco. Com o tempo e o posterior abandono dessas estruturas humanas, os animais tornaram-se ferais, multiplicando-se livremente e adaptando-se perfeitamente ao ecossistema rochoso local.
Soltos nas ilhas ao longo das décadas, esses animais adaptaram-se de tal forma ao ambiente que a área ficou amplamente conhecida como "Ilha das Cabras".
Presença das cabras fez uma verdadeira restauração ambiental
Contrariando a lógica biológica tradicional — que aponta espécies exóticas como ameaças a ecossistemas isolados —, uma população de cerca de 50 cabras que habita a ilha principal tem atuado como verdadeira agente de restauração ambiental, promovendo um crescimento expressivo da cobertura verde local.

Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) revelaram dados impressionantes sobre a evolução da flora nas Ilhas Maricás. A área de vegetação densa na ilha principal saltou de 8,4 hectares em 1940 para 19,8 hectares em 2024. No mesmo sentido, as zonas de alta preservação e forte cobertura verde avançaram de 10,7 para 41,1 hectares em um recorte recente entre os anos de 2016 e 2024.
Em muitas ilhas pelo mundo, a introdução de caprinos resulta em pastoreio excessivo e destruição do solo. Nas Ilhas Maricás, porém, a dinâmica se inverteu por causa de fatores ambientais específicos. As fezes e a urina das cabras enriqueceram o solo rochoso com nutrientes essenciais, como nitrogênio e fósforo. Além disso, ao consumirem frutos e plantas, esses animais funcionam como dispersores eficientes, espalhando sementes por onde passam, enquanto o pastejo seletivo ajuda a conter plantas invasoras agressivas, abrindo espaço para o desenvolvimento da vegetação nativa mais robusta.
O caso das Ilhas Maricás desafia os paradigmas da biologia da conservação e prova que, sob condições específicas, a presença de animais introduzidos pode gerar um ciclo benéfico para o ecossistema. O arquipélago e sua fauna singular seguem monitorados de perto por cientistas e por plataformas ambientais, garantindo a preservação desse laboratório natural a céu aberto.










